top of page

O HOMEM NÃO É O HOMEM

  • Foto do escritor: Nando Zâmbia
    Nando Zâmbia
  • 2 de jun. de 2025
  • 5 min de leitura

Atualizado: 28 de jun. de 2025


Por Nando Zâmbia
Por Nando Zâmbia



Senhoras e senhores, navegantes, internautas, curiosas e curiosos, aqui quem vos fala é Nando, que também é Luiz, Fernando, Zâmbia, Luzinho, Luizinho, Legbarinan... Permanecerei nos nomes e apelidos carinhosos, e só depois que tomarmos intimidade eu apresentarei os apelidos jocosos, aqueles que eu não ligava (ou fingia que não ligava) e que custaram caro para a autoestima. Mas isso será assunto para outra oportunidade, o que importa agora é que estamos aqui, um diante de uma partícula do outro; parte de mim está prestes a desabrochar e eu espero que nos conectemos.


Tecer palavras, frases e caminhos para, diante do outro, cumprir a tarefa de POSITIVAR A MASCULINIDADE é um desenho complexo e cheio de desafios. Certo de que não darei conta de tudo, pois existem centenas de MASCULINIDADES possíveis, me preparo e te alerto de que os pensamentos aqui compartilhados são resultados das reflexões de um homem negro, não retinto, filho de São Paulo e adotado por Alagoinhas, ator e iluminador formado pela Universidade Federal da Bahia, que já rodou pelo mundo indo de Araçás à Grécia, candomblecista e filho de Exú, produtor e realizador cultural, cria de Dona Rosa e Seu Justino.  É desse homem, desses quarenta anos de existência, dos quais muitos estão contaminados pelas concretas linhas do machismo, misoginia, patriarcado e todas essas coisas que não conseguimos tocar, mas que nos atravessam, nos forjam e nos impõem compulsoriedades que nosso consciente não percebe, logo, não conseguimos combater.


Certa feita, um amigo, o querido e talentoso Dominique Faislon, me convidou para criarmos um espetáculo, com direito a grupo de estudo, debate e bate-papo com homens para falarmos de NOVAS MASCULINIDADES. Esse espetáculo teria a direção de Onisajé, afinal, assim seria “perfeito”: dois homens, um grupo de estudo e uma mulher dirigindo, quase uma redenção para esse “fardo” que nos cai sobre os ombros, o de sermos HOMENS. Mas ao fim e ao cabo, não estreamos nenhum espetáculo com esse tema, não criamos nenhum grupo com esse assunto, nem no WhatsApp, não pedimos apoio ao “Alô Pãozinho”, o maior patrocinador de teatro da Bahia, muitas vezes o único.


Desse convite ficou tanta coisa, afinal “de tudo fica um pouco” como diria Drumond. Por um lado, ficaram as provocações e vontade de refletir sobre o assunto, mas, por outro lado, a certeza de que eu não estava pronto para falar de tudo isso. Entraria eu no foco de uma discussão: homens se encontrando para falar mal de nós, das dores, das toxidades, das lambanças que fizemos com companheiras, amigas, mães, irmãs, colegas de trabalho, paqueras... ao longo da vida... seria um martírio. Com a falta de maturidade, possivelmente, seria muito sedutor e fácil falar a partir do feminismo, apenas concordando, mas, sobretudo, fugindo das reflexões sobre nós, homens. Ali eu não me sentia pronto (nem sei se já estou), além disso acho que o trabalho fácil precisa ser combatido.


Com o tempo, percebi que homens não precisam e nem devem falar sobre e a partir dos feminismos e mulheridades, mas sim, antes disso, se deterem sobre o machismo, o patriarcado e a misoginia a partir da forma como isso os afetam. Bem como, também acredito que héteros precisam entender a heteronormatividade e os brancos a branquitude, refletindo sobre como esses conjuntos de ideias perfazem uma leitura deturpada de mundo, leitura essa que retira deles também a chance de experienciar um outro nível de humanidade. Mas deixemos a especificidades para outro texto, óbvio, se você voltar aqui para seguirmos conversando. Hoje, nossa pauta é MASCULINIDADES.


Começo essa jornada com vocês mais maduro, e antes de qualquer expectativa sobre resoluções, não se trata de reeducar o mundo, mas entender quem sou eu nesse rolê que tem prazo para terminar. Aqui, sabemos de onde partimos, mas sem noção de onde chegaremos, então é bom começar de vez, né?


Nessa conexão que agora nos acolhe, proponho “POSITIVAR AS MASCULINIDADES” não através do combate ao homem Nando, Luiz, Luzinho, Legbarinan, Zâmbia... mas trazer para a roda dessa conversa o combate à “IDEIA DE HOMEM”. Não podemos isentar nenhum homem das suas responsabilidades, mas algo maior se impõe e é necessário entender: O HOMEM NÃO É O HOMEM, O HOMEM É UMA IDEIA! O Homem é a compilação de milhares de ideias e ideais postos ao longo de séculos, milênios, que mudou ao longo do tempo, das regiões, dos continentes, das culturas, mas se perpetuou entre gerações. Ele/nós é/somos o resultante de uma série de sobreposições de ideais que forjam a personalidade, o inconsciente, a subjetividade, a ética e tudo que envolve ser e sentir ser homem.


Hoje, somos o homem, ou espectro da ideia do HOMEM/CAPITAL. Sim, talvez a ideia de homem que nos acompanha agora seja somente o HOMEM que serve ao nosso tempo, mas, calma, nós temos resquícios de todos os outros, ou seja, o Homem de hoje pode ser a MATRIX de todos que já passaram por aqui e deixaram uma herança que comunga da violência, superioridade e opressão.


Facilmente, a história nos contará que em todas as civilizações a figura masculina preponderava sobre todas as outras, sobre tudo aquilo que não era “o homem”. A “ideia de homem” sempre afirmou que biologicamente somos mais fortes, que intelectualmente somos mais inteligentes, que culturalmente somos detentores dos saberes e costumes das civilizações, mas quase esquecemos de quem contou, quem registrou a história, quase esquecemos do esforço feito para que tudo tivesse somente uma versão.


Isso cria uma moldura para as angústias que hoje estamos vivenciando, chego a afirmar que nenhum homem, em sã consciência, faria a escolha de ser homem. Intuo que o macho forjado como uma pizza família dividida em quatro sabores - violência, opressão, insensibilidade e crueldade - mata a si mesmo antes de agredir o mundo. Seria desumano relativizar a violência que explode do machismo, patriarcado, misoginia, homofobia, mas além dessa violência tem uma que antecede, uma que machuca seu próprio corpo, mente e existência. A “ideia de homem” violenta, estraçalha, deforma o afeto, o sentir, o desejar masculino, ela impõe uma sensação de “homem universal”, que não tem o direito de fraquejar, chorar, demonstrar carinho ou amor; ela enforca a nossa existência, na qual o exercício de poder herdado desse amontoado de ideias e ideais se coloca como única forma de enxergar a vida. Andamos mortos em torno da nossa enfermidade transgeracional, assustados em passar o legado que recebemos com ainda mais concretude, sentença que nos afunda antes mesmo de transbordar. Nosso futuro será ainda mais cruel do que fomos?


Com a correnteza que alarga as margens de nossas discussões posta acima, entendo que fugir dessas compulsoriedades, dessa idealização, pode ser revolucionário. Entender o que cada um é dentro dessa viagem chamada existência é tão forte quanto necessário. Facilmente, podemos lançar mão de negar sermos homens ou sermos o famigerado HOMEM FEMINISTA (quando esse surge dá até vergonha). Combater não o homem, mas a ideia que ele representa pode abrir espaço para novos caminhos de se ver, se conectar, de existir. Não estamos livres do machismo, patriarcado, misoginia, são séculos de propagação desse marketing. A rede social do MACHO é uma das mais visitadas e compartilhadas, e cabe a nós denunciar suas postagens, cancelar sua atuação e retirar de circulação tantas Fake News sobre supremacia.

 
 
 

Comentários


 2025 - Todos os direitos reservados - Positivar Masculinidades - Salvador - Bahia

agencia-amorah.png
bottom of page