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A O-IM-POSIÇÃO DO MASCULINO E SUAS CONTRADIÇÕES COM A ALTERIDADE

  • Foto do escritor: Robenilson Barreto
    Robenilson Barreto
  • 2 de jun. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: 28 de jun. de 2025





Bem, quero dizer que produzir essa escrita não é uma tarefa fácil!

Trazer a público, a afirmação de que pertencemos a um lugar potencialmente adoecido na história da construção de “Ser/Existir Homem” nos coloca a prova, para um eterno devir a ser outra coisa que não essa que me foi dada.


Se permitir a repensar um lugar é uma nobre tarefa, uma tarefa um tanta quanto hercúlea, de poder olhar as nossas contradições e colocá-las a prova em nome de um bem maior. 


Ao ser convidado a escrever na coluna “Masculinidade Positiva” para falar de um fenômeno chamado masculinidade que nos habita e nos assombra como constituinte de um lugar um tanto quanto traumático para dentro e para fora, me deparei com uma grande contradição:

Pode a masculinidade ser positiva numa sociedade onde a masculinidade se constrói no lugar hegemônico? Existe alguma possibilidade de pensar a masculinidade que não em um lugar de inteira contradição? Como falar de uma masculinidade positiva tendo me construído dentro de uma masculinidade que ameaça a existência de um outro a todo momento?

É nesse caminho que o Projeto “Masculinidade Positiva” nos convida a enfrentar nossas contradições, a descortinar as sombras submersas na instância do Masculino, a desnudar toda nossa existência como homem e repensar um outro homem ao longo de nossa existência. Um caminho que inicialmente nos assusta, mas em muito nos orgulha por fazer parte dessas des-construções. 


Costumo dizer que, talvez, a melhor forma de lidar consigo e com o outro e compreender as nossas contradições no dia a dia. Podemos substituir a contradição por crises, neuroses, conflitos, complexidades... Veja bem, se a contradição é o grande engodo em nossas vidas, portanto, as formas como nos relacionamos com o mundo é certamente, um dos objetos centrais em nossas vidas. Nessa dimensão categórica de gênero sob a ótica do Masculino, posso compreender que a construção desse masculino só foi possível na relação com o feminino. Sim, o gênero nos parece uma grande invenção para reafirmar a existência de um outro. A alteridade aqui em contraposição a existência de um outrem. Assim também, as alteridades foram construídas na extensão de raça, classe, orientação sexual e sobretudo a de gênero.


A concepção de alteridade para psicanálise remonta a experiência vivida na Primeira Guerra Mundial, em que os homens viviam momentos de destruição do campo do outro, tentando aniquilar aquilo que emerge no outro de si. Ora, se a alteridade é uma formulação de si na condição de existência do outro, jamais poderei eu existir sem esse outro que me constitui. Esse é um dos princípios da contradição que edifica a dimensão da existência do masculino pelo feminino.


Ter sido criado por mulheres que trazem uma cosmovisão de mundo antagônica aos pressupostos do ocidente, me colocou em oposição ao lugar do masculino como uma posição de caráter fluído e transitório. A vivência e experiencia no mundo do candomblé junto aos Caboclos, Orixás e Voduns me ensinou que a materialidade do corpo é apenas um instrumento transitório ocupado por energias que transmuta a lógica binária do corpo em sua dimensão biológica. Lembro que no meu Ilê, sempre assumia as funções de cuidado transmitido pela minha mãe e madrinha. Essa vivência me trouxe um ensinamento, na prática: o masculino e o feminino (ao menos na cosmovisão dos povos de terreiro) são energias vitais e complementares para existência de um ser vivo nessa terra.


Para tanto, o que torna a existência do masculino é o feminino. Um dos mitos de criação da nação Iorubá que possibilitou a existência do céu e a terra é tomado por diferentes processos de identificação e referência para a existência desses povos. Igbá-odu (cabaça da criação) é representado pelo Orixá Odudua, princípio feminino, a metade inferior da cabaça, e Obatalá ou Oxalá, princípio masculino, a metade superior da cabeça. Esse princípio da criação do mundo nos torna menos onipotente e mais humano diante da minha existência como uma referência masculina que só é possível pelo feminino. Portanto, a contradição da vida está na O-Posição da alteridade da nossa existência.


O modelo de sociedade ocidental espalhados pelo mundo, juntamente com seus mitos de origem de identificação, criou uma noção de homem que parece carregar uma série de atributos e funções cujas referências estão balizadas nas relações de Im-Posição desse Masculino. Viver sob a ordem desse homem criado no mundo idealizado de que “...ser homem bastaria e que o mundo masculino tudo me daria do que quisesse ter...” tem nos colocado em um ponto cruzado.


Para conseguirmos nos Re-Posicionar nesse ponto cruzado, é preciso compreender que existe uma possibilidade, não sem renunciar à nossa Posição, não sem renunciar ao privilégio, não sem renunciar ao Masculino que engessa e endurece a nossa caminhada diante do que resta como uma única condição: existir em muitas possibilidades. Transitar, multiplicar e diversificar a construção e a concepção desse masculino, nos desobriga a carregar o fardo de uma Sobre-Posição das relações sobre o outro.


Certamente essa nos parece uma tarefa educativa que exige de toda uma sociedade a mudança de uma forma de existir mundo em nossas relações. Um outro modelo de sociedade que permita olhar para o masculino como múltiplas formas de Posicionar a uma forma de construir a ideia de masculinidade mais fluida, transitória e diversa.

 
 
 

1 comentário


Tiago Azeviche
Tiago Azeviche
02 de jun. de 2025

Gostei Bastante provocações feitas parabéns!


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